
Há pouco mais de 2 anos, escrevi neste espaço sobre a adoção de meu gato Cisco ("historinha triste com final feliz"), e a dificuldade de aceitação e convívio com meu outro gato. Hoje, me senti impelida a dar uma palavrinha sobre como está a situação agora.
.
Só pra relembrar, encontrei o Cisco em um dia chuvoso, muito maltratado, assustadíssimo, faminto e desidratado. Quase morto. Tinha medo de tudo e pesadelos à noite.
E o Nanquim, ah, o Nanquim!.... mas ia me esquecendo de dizer, Nanquim é o nome do meu outro gato. Vou falar um pouco sobre ele. O Nanquim é grande, ágil e bruto. É hiper-ativo e às vezes surta em ataques de fúria e loucura. Chego a pensar que ele possa ter algum tipo de distúrbio mental felino. (Será que existe algum tipo de psicólogo de gatos???)
.

Encontrei o Nanquim em uma época de mudanças. Estávamos mudando o estúdio; depois de muita procura e desespero por um bom imóvel, parecia que havíamos encontrado um bom lugar. O Nanquim apareceu, por essa época, ainda no estúdio antigo. Abri a porta e ele entrou. Era junho e meu aniversário estava próximo; considerei aquele gatinho como uma dádiva, um sinal de boa sorte.
.
Era um filhotinho peludo, limpo e bem alimentado. Encantador. Não era, definitivamente, um gato de rua. Tinha os bigodes cruelmente cortados com tesoura. Procurei o dono pela vizinhança, acreditando que houvesse fugido, ou se perdido. Hoje, tenho a quase certeza de que foi expulso da antiga casa, pois o gatinho fofo se mostrou, depois, um monstrinho verdadeiramente terrível! Era bonzinho e muito carinhoso em alguns momentos, e sempre gostou (e ainda gosta) de colo, mas às vezes enlouquecia e se transformava, nos atacava com unhas e dentes (e que unhas!, e que dentes!), algo para mim inusitado em um gato (apesar de sua má fama para alguns supersticiosos). Não me refiro àquelas brincadeiras normais de gatinhos, que, às vezes, sem querer, machucam, a isso sou acostumada e acho bonitinho. Não. O Nanquim era sério e com intenções nítidas de destruição! Quantas vezes foi preciso pega-lo (como se pega um cacto espinhudo e ágil), e com rapidez colocá-lo em qualquer lugar onde se pudesse fechar a porta! Até ele se acalmar.... com o tempo ele foi aprendendo a se controlar, e parou de fazer isso com a gente. Mas continuava a dar problemas pras visitas...
.
.
Ciumento e possessivo, tinha ódio mortal do Cisco. Era loucura deixar os dois juntos, e o Cisco passou os primeiros meses fechado na lavanderia. Foi um período de muita angústia, como poderia criar os dois gatos dessa forma? E se eles nunca se acostumassem? Tentei arrumar um novo lar para o Cisco, mas aí está um empreendimento difícil! O fato é que quem gosta de gatos, geralmente já tem um monte em casa... O Cisco foi ficando. Meigo e carinhoso, à medida que o tempo passava meu coração ia se enchendo de amores por ele!
.
E o Nanquim?
.
Usei todas as técnicas que me foram sugeridas: Colocava o Cisco no boxe do banheiro, de vidro transparente, de forma que o Nanquim pudesse vê-lo sem ter contato (pois caso contrário, não teria um gato, mas um montinho de carne moída). Acariciava o Nanquim nesses momentos, para que ele se acalmasse e não se sentisse ameaçado, pois a simples visão do outro o fazia soltar faíscas pelos olhos...
.
Passava uma cordinha por baixo da porta, e incentivava-os a brincarem um com o outro, um de cada lado da porta fechada, é claro. A barreira física era importante para a segurança do listradinho.
.
Depois passei a alimentá-los no mesmo ambiente, um em cada prato e a certa distância, mas de forma que pudessem se ver enquanto comiam. Assim, o Nanquim podia perceber que a comida dele não era ameaçada pela presença do outro. Acredito que isso foi fundamental, e aconselho a todos que estejam passando por problema semelhante de adaptação entre dois animais.
Aos poucos fui deixando eles se aproximarem, sempre sob supervisão, para evitar “acidentes”. Bastava uma pequena distração e era um miado de desespero e tufos de pêlo listrado voando!...
.
Um dia, num desses momentos, aconteceu diferente: o Cisco no sofá, bem encolhidinho e morrendo de medo, as orelhas abaixadas em posição de pavor e defesa; o Nanquim tranquilamente aconchegado ao lado dele.
.
Gradativamente foram se tornando amigos, ao ponto de agora poderem ser deixados juntos em tempo integral e sem supervisão. Hoje, se gostam, dormem juntos, brincam às vezes, mas o Nanquim continua dominador.
.
Se o Cisco ainda apanha? Às vezes, e nessas horas é preciso separar os dois. Se fico fora por mais de um dia, em uma viagem, por exemplo, não posso deixa-los juntos, o que me parte o coração.
O Nanquim tem crises de ciúme e agressividade. Um crianção mimado e egoísta. Se algo o desagrada, tem ataques de fúria que desconta no Cisco.
.
Mas de maneira geral, convivem bem, e no fundo se adoram. E eu adoro eles!
Ah, e o Cisco já não tem mais tanto medo das pessoas, não tem pesadelos freqüentes e já não cai mais da cama...





