quinta-feira, 31 de maio de 2007

"Olha, é pra sempre mesmo..."

– Oi, cheguei!
Era a garota que havia marcado horário para fazer uma tatuagem.
– Mas mudei de idéia, não vou mais fazer aquele desenho.

Alguns dias, quase uma semana antes, ela havia vindo ao estúdio para escolher e conversar sobre o que iria fazer; encantou-se com o desenho de um golfinho fofo que, saltando, espirrava gotinhas de água, e estava rodeado por delicadas flores de cerejeira. Muito bonitinho. Logo que viu, encantou-se e teve certeza: era exatamente o que queria. Mas agora, no dia marcado, resolvera fazer outra coisa.

– Por quê?
– Mudei de idéia, vou tatuar o nome dele!

Era o namorado, que desta vez estava junto. Olhei para a cara dele, cheia de espinhas, magrinho, roupa social, devia ter no máximo 18 anos. Olhei para ela, bonitinha, muito jovem também. Primeira tatuagem. Tive a impressão de que o namorado a havia convencido a dar aquela prova de amor no caminho mesmo para o estúdio. Não senti firmeza, iria fazer por impulso.

Cada um sabe o que faz (pelo menos assim deveria ser, mas acho que nem todos sabem), e quem sou eu para julgar a atitude das pessoas? Mas julguei. “Ela queria mesmo era o golfinho, vai se arrepender logo, logo, se fizer o nome dele...”, pensei.
– Vocês pensam em se casar?

Susto. Estavam juntos há pouco tempo, não pensavam nisso. Mais um sinal.
– Escuta, Léia (nome fictício, até porque realmente não me lembro o nome da garota), você estava tão empolgada com o golfinho; pense bem, tatuagem é coisa séria, não vá fazer nada que possa se arrepender depois...
O namorado calado, sério, olhando para ela.
– Não, vou fazer o nome dele, mesmo.
Tentei outra sugestão:
– E se você fizer um desenho (o golfinho, por exemplo) e colocar apenas a inicial do nome? (e um dia, se for o caso, acrescentamos mais algumas florzinhas de cerejeira – isso eu só pensei, se falasse com certeza ofenderia aos dois...)

O namorado sério, quase carrancudo.
– Não, já decidi. Vou fazer o nome inteiro dele!
Ponto final.

Não fiz. Não me arrependo. Disse a ela para ir pra casa e pensar direitinho, pois percebi que naquele momento ela faria por impulso e por insistência do garoto; creio que se ele não estivesse junto ela faria outro desenho. Disse que pensasse no assunto, que uma tatuagem é pra sempre, e se resolvesse mesmo, se era realmente o que queria, voltasse mais tarde e aí eu faria.
Não voltou. Devem ter ficado com raiva, e caminhado direto para outro estúdio.
Bem, cada um faz o que quer, e cada pessoa tem as suas convicções. Eu tenho as minhas. Acredito que desenhar no corpo das pessoas é uma grande responsabilidade, e quem trabalha com isso tem todo o direito de não fazer algo que vá contra o que acha certo. Raramente recuso trabalhos; como já disse, cada um sabe de si. Mas nem sempre. Às vezes o bom senso tem que vir é da gente mesmo, tatuadores, que por experiência compreendemos melhor o sentido real de uma tatuagem.
Essa história aconteceu há cerca de um ano. Talvez, nesse tempo, ela tenha se lembrado de mim; talvez tenha se lembrado do golfinho e das cerejeiras. Tomara que não. Mas talvez (e isso é muito possível), a única lembrança que tenha ficado do garoto seja uma marca permanente em seu corpo...

3 comentários:

Allan Robert P. J. disse...

Cláudia,
Não era minha intenção ser agressivo com os leitores, quis apenas registrar o ato. Mas você tem razão: eu deveria ter linkado o meu post para comparações. Então, leia, se quiser:
http://cartadaitalia.blogspot.com/2007/05/blade-runner.html

Depois, fui indelicado: deixei o comentário sem ler um post sequer. Voltei para ler e concordo com você. Acho tatuagem uma coisa séria demais para ser tratada como um brinquedo, pois quando a brincadeira cansar ela ainda vai estar lá. Não tenho tatuagem, mas não me oporia se minhas filhas decidissem fazer.

Quando tinha 15 anos, tatuagem era coisa de marinheiro e de presidiário. Decidi fazer uma tatuagem e fui procurar um estúdio, mas em 1975 o único lugar no Rio onde havia um tatuador era o cais do porto. Fui com dois amigos e acabei mudando de idéia, mas eles, que tinham ido apenas para me acompanhar, acabaram fazendo. A coisa virou moda entre os garotos da R. Constante Ramos e dois anos depois três tatuadores (estrangeiros) trabalhavam em Copacabana.
Na Itália as tatuagens são bem aceitas, mas não me arrependo de não ter feito.

Allan Robert P. J. disse...

Cláudia,

Respondendo a sua pergunta: eu uso o Copyscape. Experimente.
http://www.copyscape.com
:)

Rafa Malon disse...

Clau, realmente você não é so uma Tatuadora, é uma PROFISSIONAL e RESPONSÁVEL. Fez muito bem, é uma prova justa e HONESTA de pessoa que não faz por dinheiro, mas por consciência e amor =]
PARABÉNS