– Oi, cheguei!
Era a garota que havia marcado horário para fazer uma tatuagem.
– Mas mudei de idéia, não vou mais fazer aquele desenho.
Era a garota que havia marcado horário para fazer uma tatuagem.
– Mas mudei de idéia, não vou mais fazer aquele desenho.
Alguns dias, quase uma semana antes, ela havia vindo ao estúdio para escolher e conversar sobre o que iria fazer; encantou-se com o desenho de um golfinho fofo que, saltando, espirrava gotinhas de água, e estava rodeado por delicadas flores de cerejeira. Muito bonitinho. Logo que viu, encantou-se e teve certeza: era exatamente o que queria. Mas agora, no dia marcado, resolvera fazer outra coisa.
Era o namorado, que desta vez estava junto. Olhei para a cara dele, cheia de espinhas, magrinho, roupa social, devia ter no máximo 18 anos. Olhei para ela, bonitinha, muito jovem também. Primeira tatuagem. Tive a impressão de que o namorado a havia convencido a dar aquela prova de amor no caminho mesmo para o estúdio. Não senti firmeza, iria fazer por impulso.
Cada um sabe o que faz (pelo menos assim deveria ser, mas acho que nem todos sabem), e quem sou eu para julgar a atitude das pessoas? Mas julguei. “Ela queria mesmo era o golfinho, vai se arrepender logo, logo, se fizer o nome dele...”, pensei.
– Vocês pensam em se casar?
Susto. Estavam juntos há pouco tempo, não pensavam nisso. Mais um sinal.
– Escuta, Léia (nome fictício, até porque realmente não me lembro o nome da garota), você estava tão empolgada com o golfinho; pense bem, tatuagem é coisa séria, não vá fazer nada que possa se arrepender depois...
– Escuta, Léia (nome fictício, até porque realmente não me lembro o nome da garota), você estava tão empolgada com o golfinho; pense bem, tatuagem é coisa séria, não vá fazer nada que possa se arrepender depois...
O namorado calado, sério, olhando para ela.
– Não, vou fazer o nome dele, mesmo.
– Não, vou fazer o nome dele, mesmo.
Tentei outra sugestão:
– E se você fizer um desenho (o golfinho, por exemplo) e colocar apenas a inicial do nome? (e um dia, se for o caso, acrescentamos mais algumas florzinhas de cerejeira – isso eu só pensei, se falasse com certeza ofenderia aos dois...)
– E se você fizer um desenho (o golfinho, por exemplo) e colocar apenas a inicial do nome? (e um dia, se for o caso, acrescentamos mais algumas florzinhas de cerejeira – isso eu só pensei, se falasse com certeza ofenderia aos dois...)
O namorado sério, quase carrancudo.
– Não, já decidi. Vou fazer o nome inteiro dele!
Ponto final.
Não fiz. Não me arrependo. Disse a ela para ir pra casa e pensar direitinho, pois percebi que naquele momento ela faria por impulso e por insistência do garoto; creio que se ele não estivesse junto ela faria outro desenho. Disse que pensasse no assunto, que uma tatuagem é pra sempre, e se resolvesse mesmo, se era realmente o que queria, voltasse mais tarde e aí eu faria.
Não voltou. Devem ter ficado com raiva, e caminhado direto para outro estúdio.
Bem, cada um faz o que quer, e cada pessoa tem as suas convicções. Eu tenho as minhas. Acredito que desenhar no corpo das pessoas é uma grande responsabilidade, e quem trabalha com isso tem todo o direito de não fazer algo que vá contra o que acha certo. Raramente recuso trabalhos; como já disse, cada um sabe de si. Mas nem sempre. Às vezes o bom senso tem que vir é da gente mesmo, tatuadores, que por experiência compreendemos melhor o sentido real de uma tatuagem.
– Não, já decidi. Vou fazer o nome inteiro dele!
Ponto final.
Não fiz. Não me arrependo. Disse a ela para ir pra casa e pensar direitinho, pois percebi que naquele momento ela faria por impulso e por insistência do garoto; creio que se ele não estivesse junto ela faria outro desenho. Disse que pensasse no assunto, que uma tatuagem é pra sempre, e se resolvesse mesmo, se era realmente o que queria, voltasse mais tarde e aí eu faria.
Não voltou. Devem ter ficado com raiva, e caminhado direto para outro estúdio.
Bem, cada um faz o que quer, e cada pessoa tem as suas convicções. Eu tenho as minhas. Acredito que desenhar no corpo das pessoas é uma grande responsabilidade, e quem trabalha com isso tem todo o direito de não fazer algo que vá contra o que acha certo. Raramente recuso trabalhos; como já disse, cada um sabe de si. Mas nem sempre. Às vezes o bom senso tem que vir é da gente mesmo, tatuadores, que por experiência compreendemos melhor o sentido real de uma tatuagem.
Essa história aconteceu há cerca de um ano. Talvez, nesse tempo, ela tenha se lembrado de mim; talvez tenha se lembrado do golfinho e das cerejeiras. Tomara que não. Mas talvez (e isso é muito possível), a única lembrança que tenha ficado do garoto seja uma marca permanente em seu corpo...


3 comentários:
Cláudia,
Não era minha intenção ser agressivo com os leitores, quis apenas registrar o ato. Mas você tem razão: eu deveria ter linkado o meu post para comparações. Então, leia, se quiser:
http://cartadaitalia.blogspot.com/2007/05/blade-runner.html
Depois, fui indelicado: deixei o comentário sem ler um post sequer. Voltei para ler e concordo com você. Acho tatuagem uma coisa séria demais para ser tratada como um brinquedo, pois quando a brincadeira cansar ela ainda vai estar lá. Não tenho tatuagem, mas não me oporia se minhas filhas decidissem fazer.
Quando tinha 15 anos, tatuagem era coisa de marinheiro e de presidiário. Decidi fazer uma tatuagem e fui procurar um estúdio, mas em 1975 o único lugar no Rio onde havia um tatuador era o cais do porto. Fui com dois amigos e acabei mudando de idéia, mas eles, que tinham ido apenas para me acompanhar, acabaram fazendo. A coisa virou moda entre os garotos da R. Constante Ramos e dois anos depois três tatuadores (estrangeiros) trabalhavam em Copacabana.
Na Itália as tatuagens são bem aceitas, mas não me arrependo de não ter feito.
Cláudia,
Respondendo a sua pergunta: eu uso o Copyscape. Experimente.
http://www.copyscape.com
:)
Clau, realmente você não é so uma Tatuadora, é uma PROFISSIONAL e RESPONSÁVEL. Fez muito bem, é uma prova justa e HONESTA de pessoa que não faz por dinheiro, mas por consciência e amor =]
PARABÉNS
Postar um comentário